quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A eternidade do conhecimento

                          Iniciar e terminar uma observação etnográfica - quando se convive com seu "objeto" - requer uma flexibilidade quase impossível de se colocar no papel ao se entregar um projeto de pesquisa. O percurso planejado previamente auxilia no estabelecimento de um norte, mas não prevê ou soluciona os imprevistos derivados do dia a dia, do desconhecido, das relações afetivas e culturais e das próprias emoções, pois uma pesquisa pode até ter a intenção de ser objetiva, mas não a vida não é objetiva e pessoas não são objetos.
                          A experiência no Inselreich teve uma dinâmica particularmente produtiva, que só foi possível após um treino forçado para aprender mais a observar do que a interferir. Tive uma grande ajuda da Patrícia que, pacientemente, conversava e trocava informações e impressões comigo semanalmente sobre o papel dos sujeitos naquele lugar, sobre a dinâmica entre cuidadoras e crianças, corrigindo ou reinterpretando alguns pontos dos textos que eu escrevia e postava. Esta última atitude foi muito importante, pois me chamou a atenção para os pontos cegos que me impediam ter a visão do todo. 
                          Um exemplo disso foi no caso da comunicação com as crianças. As cuidadoras costumam ter um diálogo mais aberto com elas durante as trocas de fraldas e na hora de dormir, mas como eu me estabeleci mais na sala de movimentos e de brinquedos e jogos, não presenciei tanto os diálogos, o que me levou a concluir equivocadamente que não havia um relacionamento mais pessoal no ambiente. 
                          Outro exemplo é em relação ao trabalho com material artístico ou com lápis e canetas. A complementação explicativa que me foi dada é de que a utilização destes materiais pode gerar algumas expectativas que não correspondem àquela idade, como esperar que as crianças escrevam. Também seria um risco pelo fato do local não oferecer suportes adequados para que trabalhasse com tinta ou outros materiais do tipo, levando as crianças a riscarem chão, paredes, brinquedos etc.
                          O terceiro exemplo foi em relação a uma dúvida que tive sobre crianças com deficiência ou inclusão (Integration). De acordo com a Patrícia, para que a pré-escola possa admitir um aluno nessas condições, é obrigatório ter um profissional que tenha um curso de especialização na área, pois no curso para Erzieher/in não há uma disciplina específica. Como no Krippe ninguém ainda havia conseguido realizar a especialização, eles não estavam autorizados a receber essas crianças. Também há questões financeiras, pois uma especialista a mais também é um custo a mais. Por sua disponibilidade, críticas e sugestões referentes à minha postura, caminhos de pesquisa e curiosidade acadêmica, eu agradeço à Patrícia, principalmente, e a todas as colegas do Krippe que colaboraram para o crescimento do meu aprendizado.
                          O compartilhamento de informações, seja com a Patrícia, seja com os textos postados aqui foram viáveis por causa das anotações diárias feitas durante a observação. O suporte era simples, um caderno ou uma agenda. O foco inicial era anotar como funcionava o espaço, sua rotina, as interações mais cotidianas e padrões. Depois, eu procurava estabelecer uma conexão com o que eu já havia vivenciado no modelo brasileiro, com as leis da cidade de Berlim e com os autores citados durante as postagens. Por fim, eu procurava escrever uma síntese destas impressões em forma de texto para colocá-las no blog. Embora os comentários estivessem abertos na própria página, eles vieram através de outros recursos, como o Whatsapp, produzindo críticas e discussões com colegas e amigos da área.
                          O que levo após esta experiência é a certeza de que em discussões sobre educação, quando tratadas com bom senso e referências bibliográficas sérias, não existe um ponto final ou uma linha pedagógica perfeita. Pessoas muito bem intencionadas, referências na área, erram e acertam em sua tentativa de construir uma pedagogia que respeite as crianças em sua totalidade. Erram, porque são humanas. Acertam, porque são persistentes. Vencem, porque seu trabalho se eterniza no desenvolvimento de cada um dos pequenos e pequenas no decorrer de suas vidas.