quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Todo mundo envelhece

                     Vão-se os bebês, permanecem as crianças e enquanto este processo temporal acontece, tentamos nos aproximar do universo infantil, ao qual um dia já pertencemos, recorrendo a médicos, pedagogos, psicólogos, teorias... As vezes, mais lemos e estudamos do que, de fato, prestamos atenção nas crianças durante as suas descobertas. Equipar uma sala com objetos e aparatos que contemplem o movimento e a brincadeira traz a vantagem da observação e da análise do desenvolvimento de cada um.
                   
                     No Krippe, há dois ambientes em que as crianças mais permanecem. o primeiro, é o Spielraum (sala de brinquedos/jogos), onde se localiza o Strandgut, parte do refeitório e um espaço onde as crianças encontram prateleiras com livros infantis e fotos das famílias, tapetes, almofadas, tecidos, bonecas, jogos de encaixe e outros objetos para brincarem. O segundo é o Bewegungsraum (sala de movimento); maior do que o primeiro ambiente, possui um de seus lados uma estrutura de madeira em que as crianças podem escalar, escorregar, subir e descer degraus, mover discos e fazer o que puderem imaginar.. no restante do quarto, há dois berços baixos passíveis de serem escalados, bichinhos de tricô, mesinhas com bancos, carrinhos de madeira e uma estrutura central que pode ser desmontada.

Estrutura central: quando juntas, as peças formam um escorregador
                     
                     Quando a porta que conecta as duas salas está aberta (quase sempre), as crianças podem circular por elas, levando e trazendo objetos. Foi em uma destas incursões que M. (um dos mais novos), desenvolveu seu experimento com cilindros de madeiras. Sentado na sala de brinquedos/jogos, ele manipulava os cilindros, cada um com aproximadamente 7 centímetros de diâmetro e 12 centímetros de altura, olhando sua forma e, diretamente, sentindo sua textura irregular. Após algum tempo, ele carregou cerca de 6 destes objetos para a sala de movimento em duas viagens e começou a testá-los na estrutura central, que então formava um escorregador.

                     Primeiro, colocou os cilindros de madeira nos degraus curvos, mas eles não se sustentavam. M. tentou, então, a rampa acoplada. Quando colocou-o o primeiro na prancha de madeira, apoiado pela base, ele deslizou até a outra extremidade. Percebendo o ocorrido com o primeiro, tentou reproduzir com os outros, para testar os efeitos. Após terminar com todos, tentou outra posição, desta vez com os cilindros  deitados na horizontal e na vertical para ver se produziam o mesmo efeito enquanto deslizavam. O experimento durou quase meia hora e só foi interrompido pela cuidadora quando chegou sua hora de trocar a fralda e dormir.

                     
                    
                      Em determinados casos, percebe-se que o espaço já é dominado pela criança e se torna limitado para que ela mais seu potencial. É o caso dos meninos e meninas mais velhos que já estão em vias de irem para a pré-escola, geralmente a partir dos três anos. Quando o momento se aproxima, a criança, a turma, os pais e as cuidadoras participam de um rito de passagem em que podem relembrar a sua trajetória no Krippe. 
                     Crescer e envelhecer são processos da vida que testam a capacidade que os seres humanos tem de enfrentar a sua natureza finita, mas poder apreciar o amadurecimento de outro indivíduo sem que ele perceba que está mudando e sem se assustar com sinais do tempo encaráveis no espelho é um privilégios que poucas profissões e poucas teorias podem oferecer.
                     

Crédito das imagens:
Rampa: https://www.jugarijugar.com/es/pikler/3463-rampa.html
Arco: http://www.pictame.com/user/trestes_brinquedos/4099370372
Cilindro: https://lista.mercadolivre.com.br/cilindro-mdf




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Comer é uma festa

                      Quem trabalha ou trabalhou em creches e escolas já se deparou com a cena de almoço no refeitório em que um adulto serve a comida diretamente na boca das crianças e checa para ver se já engoliram ou não. os pratos são abastecidos com comida à revelia do gosto da criança e isto não é um convite para que ela experimente um alimento novo. É uma ordem. Comer tudo ("limpar o prato") também costuma ficar no modo imperativo. Não há muito espaço para conversas amigáveis.
                      Imagine você, adulto ou adulta, ter que se submeter a pessoas que te alimentem desta forma em um ambiente hostil. Protestos como "pimentão me dá dor de cabeça" ou "azeitona ataca meu fígado" não importam. A capacidade do seu estômago não importa. Sua individualidade e seu paladar não importam. Apenas coma em silêncio, e tudo, e rápido.
                 A reconhecida importância da hora da alimentação não é uma frescura pedagógica moderna, mas remonta a histórias, lendas e mitos, pinturas e filmes da Civilização Ocidental. Dionísio e/ou Baco descritos como precursores de festas animadas envolvendo muitos comes e bebes; Platão tem uma transcrição de um duelo intitulado "O Banquete", que fala sobre a natureza e as coisas humanas, principalmente sobre o amor e afirma que quando nasceu Afrodite, os deuses banqueteavam-se; para os que creem, a conversa mais importante entre Jesus e seus doze apóstolos ocorreu durante a última ceia, imortalizada mais de 15 séculos depois por Leonardo da Vinci.
                      No entanto, parece que em algumas creches e escolas, o processo social que envolve a alimentação foi retirado do campo do prazer e da necessidade e transferido para o campo da força. A reação infantil pode até dar a impressão de que elas não gostam de comer, ou que se alimentar é mais uma lição passada na escola e que deve ser executada.
                      No Krippe, a hora da refeição é sempre recebida com alegria pelas crianças. A primeira delas é compartilhada, uma fruta cortada e servida para as crianças que queiram come-la no horário da manhã. O momento é anunciado oralmente, mas sinais físicos também alertam as crianças: a toalha estampada estendida e o círculo formado pelas crianças que sentam para comer fazem parte do ritual. Todos comem a quantidade desejada e tem sua vez de pegar um pedaço ou mais. 
                      A segunda refeição é o almoço. A comida chega em um carrinho e as crianças são chamada pelo nome em trio ou quarteto. Como a ordem dos grupos é sempre a mesma, quando um termina, o outro já sabe quem é o próximo. Uma cuidadora se senta com as crianças, anuncia e oferece quais são as opções do dia. A porção servida não é exagerada e são de acordo com o paladar da criança. Se ela não gostar ou rejeitar por qualquer motivo, não é obrigada a comê-lo. Se quer mais um pouco, é servida novamente. Para acompanhar, suco ou água. As conversas não são proibidas e o silêncio não é uma regra. No final, suas mãos e bocas são limpas gentilmente.
                      A terceira e geralmente última refeição é o lanche da tarde, servido após a hora de dormir. Ele segue o mesmo esquema de grupos do almoço e, geralmente, oferece-se chá, suco ou água com bolachas e pães integrais, manteiga, cream cheese e geleias. Ninguém é pressionado a comer o que não quer ou a quantidade não suportada. Alguns comem mais no almoço, outros nos lanches, e isto não é um problema.
                      O corpo dita as necessidades, enquanto os seres humanos e o ambiente alimentam o corpo e o espírito.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Registro de confiança

                      Confiar os filhos a pessoas estranhas, mesmo aquelas habilitadas para trabalhar com crianças e jovens é uma tarefa que exige mais fé do que razão. Pode-se pesquisar na internet as instituições mais bem avaliadas, com mensalidades maiores ou menores, pedir conselhos para amigos e amigas que já tem filhos ou tentar uma vaga naquela creche bem conceituada perto de casa. Mas, no fim, pouco se sabe sobre as pessoas que iniciarão as atividades pré-escolares dos seus filhos e elas também pouco sabem sobre a criança.
                      Uma forma encontrada no Inselreich para promover e fortificar a confiança é, como já citada anteriormente, a ativa participação dos pais no seu funcionamento. Além disso, as cuidadoras tem um arquivo com registro diário das crianças, um diário individual (Tageshefte), no qual elas fazem suas observações. Ele é separado em três colunas (Dia/alimentação/atualizações) e são anotados os pontos mais relevantes do desenvolvimento de cada um, formando uma narrativa ao longo do trimestre, apresentada aos pais em forma de carta-relatório.
                      Também são anotadas alterações do dia a dia que possam causar alguma reação diferente no comportamento das crianças, como a presença de estagiários ou de novas crianças. Em alguns casos, registra-se se comeram ou rejeitaram algum alimento específico. Além disso, atualizam brevemente os pais na entrada e na saída.
                      O registro diário permite às cuidadoras rememorarem e acompanharem a evolução de cada um. Por observarem seus movimentos e suas brincadeiras diariamente, a narrativa é baseada no relacionamento das crianças os seus pares, com os brinquedos e com os adultos. Pode-se perceber, por exemplo, quando compreendem o objeto tanto em seu sentido literal (o gancho do telefone de brinquedo é entendido como tal, colocado na orelha e na boca) quanto em seu sentido figurado (entrar em um cesto e utiliza-lo como se fosse um carro, dirigindo um volante invisível).
                      A criação das regras internas de cada brincadeira são observáveis em maior ou menor grau segundo cada criança, principalmente quando brincam juntas. As regras podem ser bastante harmônicas, como no caso das duas meninas que costumam brincar de boneca juntas. Os limites são bem estabelecidos, cada uma tem um local próprio para trocar suas fraldas e colocam-nas para dormir juntas em um berço arrumado por elas. Algumas regras podem, contudo, ser conflitantes, principalmente para a utilização dos brinquedos. A vez que o outro tem o direito de se balanças na rede, por exemplo, não é estabelecida por uma regra tão clara entre as crianças. Depende muito da boa vontade de quem está lá sair e dar a vez ao próximo, ou negociarem (raramente) ou reclamarem/chorarem (mais comum).
                      O desmancha-prazeres, figura universal, também se apresenta nas brincadeiras. As regras internas servem para que as brincadeiras possam existir em seu universo lúdico e quebra-las significa que este universo foi violado, causando um retorno bruto e indesejado à realidade. Duas crianças fizeram fila indiana e brincaram de pular de cima de uma caixa até o chão. Uma regra muito simples estabelecida era de que um só podia pular quando o da frente já tivesse pulado. Quando a menina que estava à frente demorou um pouco mais para pular (estava arrumando sua blusa), o de traz a empurrou, forçando sua descida. Para ela, a brincadeira acabou ali. Ela ficou decepcionada e chorou um pouco por causa do empurrão e do susto. Procurou outra coisa para brincar, então. Já o menino, pulou ainda mais uma vez, mas logo abandonou as caixas.
                      Observar e registrar as nuances de comportamento exigem treinamento e esforço, pois facilmente podem ser subjugadas pelos movimentos rotineiros e previsíveis. Compreender o sentido da brincadeira também requer estudo e sensibilidade suficientes para poder classificar seus estágios e o modo como eles dão sentido ao desenvolvimento da criança e do grupo. Finalmente, um registro aprimorado pode revelar para os pais o quanto seus filhos estão sendo cuidados e educados no ambiente onde passam boa parte de sua infância.


Homo Ludens (J. Huizinga)
O jogo e a Educação Infantil (T. Kishimoto)

                      

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Número e gênero


Distinguir os gêneros, na gramática alemã, é difícil, ainda mais para quem foi alfabetizado em uma língua que, raras exceções, palavras terminadas em “o”, são masculinas e terminadas em “a” são femininas.
Aqui, além das regras serem exceções, ainda existe o gênero neutro, quando a palavra não é nem masculina e nem feminina, representado pelo artigo definido “das”. Não importa se, em seu significado, ela seja feminina, como Mädchen (menina). Seu gênero será neutro mesmo assim será neutro (das Mädchen)
O que é teorizado na gramática se revela no dia a dia. No Krippe, por exemplo, as roupas e acessórios com os quais as crianças chegam, a escolha dos brinquedos e as brincadeiras pouco se encaixam no convencional masculino e feminino. Tudo é bastante colorido e diversificado. Os meninos amarram panos em seu corpo para fazem um suporte canguru para as bonecas-bebês, os cabelos curtos, compridos, repicados, retos, com ou sem franja servem para todos. As possibilidades são muitas, assim como as escolhas que farão na vida.
Ninguém é repreendido por explorar, experimentar ou vestir. Quanto mais aberta a mente ao respeito, à diversidade e às escolhas plurais e individuais, maiores são as chances de permitir às crianças desenvolverem sua personalidade de modo saudável, alimentando sua autoestima e seu processo de se autoaceitar. Ao mesmo tempo, podem olhar para o outro e reconhecer diferenças e semelhanças sem julgamentos depreciativos que pudessem evoluir eventualmente para o preconceito ou para a discriminação.
Mas se compreender isto já é difícil para que pensa que entende do assunto, imagine para quem ainda acredita que meninas devem vestir rosa e meninos, azul?


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Funcionários do mês: mãe e pai (e vô, e vó...)


A Alemanha é um dos países ameaçados pelo seu envelhecimento e pela baixa taxa de fecundidade, ou seja, a expectativa de vida aumenta enquanto nascem poucas pessoas. Não fosse pela ininterrupta e criticada política de imigração, a situação estaria ainda mais desesperadora.
Um filho ou é luxo, pelas despesas emocionais e financeiras que gera, ou é supérfluo, não se precisa desse aspecto da vida em sociedade para ser feliz. O governo tenta incentivar. Em Berlim, o primeiro e o segundo filhos recebem uma ajuda de custo (Kindergeld) de 192 Euros; para o terceiro, o valor é de 198 Euros e do quarto em diante, 223 Euros. Sim, o valor é crescente, cumulativo e mensal. Ele dura até que se complete 18 anos, ou 21 (desempregados) ou 25 (estudantes).
            Ainda assim, ter filhos é complicado também na capital alemã. A cultura da “avó cuida” é brasileira e já foi citada anteriormente a dificuldade de se encontrar creches para crianças pequenas, impedindo os pais de retornarem ao mercado de trabalho e, consequentemente, diminuindo a renda familiar justamente quando mais um membro é depende dela.
 A boa notícia é que as creches são gratuitas. Em alguns casos, pede-se uma ajuda de custo para os pais que não ultrapassa os 90 Euros. A má notícia, principalmente para que acha que a própria responsabilidade de cuidar e educar termina quando a criança vai porta adentro da instituição de ensino, é que a relação criança/vaga é utilizada como parte do processo seletivo para ingressar em um Kita ou Krippe.

O quanto o senhor/senhora está comprometido com a educação e criação do seu filho a ponto de aceitar responsabilidades que garantam o funcionamento da própria creche/escola?

Pois não é apenas deixar a criança e depois buscar, muito menos apenas participar palidamente da reunião bimestral ou trimestral. Por se tratar de um Kita fundado por pais e profissionais da educação, é fundamental que as famílias assumam obrigações também, como controlar e fiscalizar as finanças, consertar e reformar objetos e brinquedos, buscar parcerias com estabelecimentos de bens e serviços, fazer a faxina, organizar festas e eventos, preparar/comprar lembrancinhas para professoras e crianças em datas especiais etc.
No entanto, não interferem nas resoluções pedagógicas, também pouco julgam o filho ou a filha dos outros ou comparam os seus com os demais. Há encontros periódicos entre os pais e responsáveis para estabelecerem e verificarem as metas e um quadro fica à disposição na entrada com o nome do pai ou da mãe e sua atribuição.
O número total de crianças pequenas e grandes é 25, dentre elas, alguns irmãos e irmãs, o que torna o número de pais e responsáveis relativamente pequeno e, consequentemente, próximo. Aparentemente, a maioria se conhece e quando há desavenças, uma pessoa é designada para ouvir as partes envolvidas e procurar uma solução sensata.
Até o momento, é o mais próximo que já encontrei de uma parceria simbiótica e coerente entre família e instituição.



Kindergeld em Berlim

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A personalidade como parâmetro para a igualdade

                         O processo de seleção das crianças e famílias que integrarão a creche no início de cada semestre letivo é rigoroso. Começa com um formulário online, disponível no site do Kita, passa por uma entrevista com os pais, pela vivência com as outras crianças até a decisão final do conselho de verificar se a família e a criança estão dentro ou não dos parâmetros exigidos. Nem todos os candidatos tem a sua matrícula aceita e então precisam procurar outro lugar. À primeira vista, o resultado parece ser a formação de um grupo com um comportamento sempre igual.
                         No entanto, um olhar mais atento no dia a dia revela que, mesmo nesta aparente homogeneidade, a personalidade das crianças traz cores e tons mais fortes e difusos do que aqueles vislumbrados no processo seletivo. Dentre as dez crianças observadas, é possível destacar alguns traços de personalidade:
K: é uma criança extremamente comunicativa e muito sensata. Consegue ter bons momentos tanto sozinha como em grupo. Raramente precisa de intervenção ou sugestão das cuidadoras.
H: é bastante sensível e se frustra facilmente com atitudes que contradizem a sua. Demonstra esta frustração com um choro que evolui para a verbalização da falta dos pais. Tem uma colega com quem brinca mais e confia pouco nos demais.
I: Tem bons momentos com outras crianças, mas prefere brincar sozinha. Consegue explorar vários pontos da sala de movimento e de brinquedo individualmente. Em seus desafios diários, como escalar, parece insegura e sempre pede ajuda ou choraminga. Comunica-se pouco com palavras.
S: um dos mais velhos do grupo. É cooperativo e se relaciona melhor com outra colega que tem quase a mesma idade. Não é um líder, mas é independente e não faz nada que seja contra sua vontade.
Z: amiga de H, porém mais independente. Consegue interagir bem com os demais e lidera as brincadeiras que a dupla realiza. Precisa de pouca intervenção e consola H. quando esta chora. Resolve a maior parte de seus desafios sozinha e raramente chora.
T: pouco compareceu à creche no mês de janeiro, pois estava doente. Nos dia que veio, mostrou-se extremamente sensível à ausência dos pais e pouco confiante na presença dos outros. Permaneceu quase todo tempo com as cuidadoras e pouco se aventurou a ficar apenas na companhia das outras crianças.
L: é a crianças dos olhos expressivos, boca de poucas palavras ("mama", "papa") e introspectiva. Nada disso a torna infeliz, pelo contrário, parece sempre satisfeita com a sua própria companhia.
N: Um dos mais novos, o que não o impede de ser curioso e comunicativo. Faz muitas descobertas em suas incursões, principalmente quando está sozinho. observa com atenção as brincadeiras dos demais e quando se interessa, junta-se a eles. Precisa/pede pouca ajuda.
Q: Uma das mais velhas, já apresentadas anteriormente como uma criança musicalmente expressiva e de personalidade forte. Lidera as brincadeiras, atribui funções aos colegas, coloca-se lado a lado com as cuidadoras procurando realizar suas tarefas. Quando se frustra, eleva o tom de voz e/ou empurra e bate. É por isso que ainda precisa de intervenção das cuidadoras. No mais, é completamente independente e está prestes a ser transferida para o grupo de crianças mais velhas. Nas últimas duas semanas não esteve presente e a ausência da luz da sua personalidade tirou da sombra o último descrito, aqui chamado de E.
E: Sempre se misturou com o grupo, embora pareça brincar sozinho mesmo quando está com os outros. o que se destacou foi o fato de empurrar ou bater em colegas que não estavam provocando ou sequer estavam perto dele. Também arrancava o brinquedo da mão dos outros colegas, fazendo com que alguns chorassem. Não havia alvos repetidos, qualquer um podia ser agredido. As cuidadoras sempre intervêm, mas poucos minutos depois ele repetia com outro colega, e elas voltavam a conversar com ele, as vezes em particular ("fazer uma pausa").
                         A pluralidade de personalidades que afloram após algum tempo na creche, quando estão mais à vontade, faz perguntar se os adultos ainda assim aceitariam sua matrícula, caso soubessem o que estaria por vir. A condição humana faz com que nos afeiçoemos a um indivíduo pela sua personalidade, assim como também pode nos fazer sentir repulsa por outro. As cuidadoras procuram tratar todos de acordo com seus traços pessoais de identidade, mas ainda dentro do que sugeriu Emmi Pikler, ou seja, não gritam com as crianças, mas demonstram sua insatisfação na forma como falam, na escolha das palavras, na linguagem corporal etc.
                         Em nenhum momento classificam a criança como problemática, encrenqueira, hiperativa, bagunceira ou utilizam qualquer outro adjetivo pouco producente. Na sua concepção, compreendem que, em sua complexidade, as crianças enquanto seres humanos tem momentos de frustração que se traduzem em ações pouco aceitas no mundo adulto (correr, gritar, bater, empurrar, morder, entre outros). Sobre a violência, é importante ressaltar que ela não possui entre as crianças o mesmo significado e a mesma dimensão que possui entre os adultos. De acordo com Isa Rodrigues da Luz, 

a realização de atos violentos pressupõe que a pessoa já tenha desenvolvido a capacidade de compreender e interpretar as situações vividas. Por essas características que definem o ato violento (ou a violência), e considerando o desenvolvimento das crianças na faixa etária de 0 (zero) a 5 (cinco) anos, não há como dizer que essas crianças agem de forma violenta. Pois, mesmo que a vontade de incomodar ou machucar possa estar presente nos motivos da criança, elas não conseguem avaliar de forma completa as possíveis consequências de seus atos. Além disso, não possuem controle completo do próprio comportamento, estando mais suscetíveis as reações provocadas pelas emoções.
                         Assim, se o acaso traz personalidades-surpresa para as cuidadoras, elas estão muito bem preparadas para lidar com as adversidades. Não existe, aqui, criança problemática. Não se espera um uma medicação contra TDA/H para uma criança que se movimenta ou que tem enfrentamentos durante seu dia. O diagnóstico para a situação deste indivíduo já está formulado: ele é uma criança e o prognóstico, na maioria das vezes, é uma vida longa e saudável.





terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A parede está nua

                         Na sala de movimento, encontramos muitos brinquedos e uma estrutura grande de madeira. Há também algumas caixas de madeira e é uma dela que se tornará o palco de uma apresentação muito especial. Q., uma das mais velhas da turma, sobe em uma das caixas e canta. Alguns colegas acompanham o show, do chão, apenas ouvindo. Ela faz uma pequena pausa e uma das meninas começa a aplaudir. A resposta da cantora é pedir para a outra não aplaudir - ela não havia acabado o show ainda.. Q retoma mais algumas estrofes da canção e então para novamente. Silêncio.
                         "Agora vocês podem aplaudir". Acabou o show.
                       Estamos nas semanas seguintes às festas de final de ano e, às vezes, alguma criança cantarola o trecho de uma música de Natal ("O Tannenbaum" é de longe a preferida). Costumam também utilizar materiais disponíveis para simular instrumentos ou produzir sons, batendo uns nos outros. Ao redor, nenhum rádio, televisão, aparelho de DVD ou projetor/computador e nem quadros. Não há referência  externa musical, plástica ou audiovisual  no país que compartilha a mesma língua de Marlene Dietrich, F.W. Murnau, Beethovem e Gustav Klimt e que abriga uma das referências em música eletrônica, a casa noturna Tresor.
                         Paulo Freire expôs a importância de se considerar a cultura do indivíduo como ponto de partida para se pensar o seu processo educacional. Mas sem referências externas, como expandir a vivência, estimulas a plasticidade, a crítica ou criar laços identitários entre criança, ambiente, adultos e mundo? Cedo ou tarde, sem inspiração, a imaginação pode sofrer de inanição.
                             Em uma cidade como Berlim, andar pelas ruas significa estar exposto a influências midiáticas o tempo todo. Nos vagões de trem e metrô, há televisão com notícias e entretenimento e músicos, nas paredes das estações, cartazes anunciando shows e peças de teatro, nas ruas, outdoors com a próxima exposição ou o próximo lançamento nos cinemas. Além das referência histórico-culturais - pedaços remanescentes do muro, só para citar o mais conhecido - há um local chamado Ilha dos Museus (Museumsinsel), um complexo às margens do Spree que abriga 5 museus (há outros inúmeros espalhados pela cidade). Então mesmo que a criança não tenha acesso à tecnologia ou às artes plásticas em casa, a cidade faz o convite. 
                            O "Programa de Educação para Kitas e Kindertagespflege de Berlim" (Berliner Bilsdungsprogramm für Kitas und Kindertagespflege) considera ainda a importância das mídias como meio de informação e compartilhamento do conhecimento mundial, bem como provedora de vastas possibilidades para jogos/brincadeiras, aprendizado e entretenimento, incluindo aí celulares, computadores, tablets etc. Adianta ignorar? Novamente, pensando no ambiente Montessori-Pikler no século XXI, ele precisaria ser repensado para incluir novos materiais e novo treinamento para professores e professoras que os auxiliasse a pensar nas mídias, na música e nas artes plásticas como partes integrantes na formação da criança? 
                                  A criação técnica e cultural da humanidade não pode regressar à estava zero quando a criança entra na creche. Os móveis adequados e os brinquedos são importantes, mas existe a cultura e a tecnologia influenciando as brincadeiras infantis e não podem ser ignoradas, sob o risco de se construir um ambiente rico em pedagogia, mas pobre em recursos significativos.


O Tannembaum

"Programa de Educação para Kitas e Kindertagespflege de Berlim" (Berliner Bilsdungsprogramm für Kitas und Kindertagespflege)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Praia não é sinônimo de verão

                         Areia, pazinhas, mesas e, no céu, muitas nuvens e as vezes neve. Protegida das rajadas de vento, está o espaço da casa de praia ("Strandgut"), dentro do Krippe. Não se trata de uma construção gigante, ms de uma opção para simular um ambiente diverso. Um cercado resguarda um local modesto em que as crianças podem brincar com objetos de uma casa, como ovinhos de madeira com seus suportes, panelas e vasilhas de tamanhos variados, colheres, mini-regadores, xícaras e peneiras.
                         A casa de praia não fica aberta todo o dia. Às 11 da manhã, quando o almoço começa a ser servido, o espaço é fechado e, talvez, novamente reaberto por um curto período após o lanche da tarde. As cuidadoras aproveitam para organizar o espaço, ou seja, varrer e recolocar a areia nas tuas tinas que servem para guardá-las e reorganizar os objetos de modo que sejam interessantes novamente para as crianças.
                         Não há drama no aproveitamento da areia. Algumas crianças, como é de se esperar, experimentam-na com a boca, sujam suas roupas sem medo de levar bronca da professora ou em casa. Ao saírem do espaço, batem com as mãozinhas nas vestes e já estão limpas novamente.
                         Casa na praia e areia. Tudo abaixo de zero.

sábado, 12 de janeiro de 2019

A intencionalidade fala mais alto

                          No dia dos professores, em 2018, ganhei uma agenda. Eu não uso agenda, mas decidi que aquela eu usaria para fazer anotações sobre o dia a dia em Berlim. Mas, com o passar do tempo, ela se tornou mais do que um objeto de observação.
                          Logo no segundo dia, a agenda chamou a atenção de uma das garotinhas mais velhas, que está prestes a completar 3 anos. A capa colorida e a personagem negra e de cabelos esvoaçantes da ilustração se tornou um atrativo para ela. O que eu estava fazendo com aquele caderno? "Estou escrevendo para um trabalho" - respondi, seguindo a regra da comunicação curta e direta. Ela quis ver o que era e eu lhe entreguei a agenda. Ela folheou e leu algumas histórias imaginárias em suas páginas em branco.
                          Nos dias que seguiram, ela pediu a agenda emprestada. Sentava-se no chão ou sozinha ou com seus colegas para ler histórias que ela mesma criava. No final da primeira semana, ela arriscou perguntar se podia escrever também. Emprestei-lhe minha caneta e ela riscou da forma como achava que seu nome era escrito. No final daquele dia, a cuidadora disponibilizou lápis, giz de cera e folha para eles utilizarem nas mesinhas que antes serviam as refeições, mas que agora se encontravam vazias.
                           Uma semana depois, comprei um caderno mais simples sabendo que a agenda chamaria muita atenção. Na segunda-feira, a mesma menina me perguntou onde estava o outro caderno. Eu expliquei que não havia levado, mas que no dia seguinte poderia trazê-lo novamente. Na terça-feira a agenda estava de volta, e ela leu em suas páginas em branco mais algumas histórias. Já na quarta-feira, ela pediu para escrever. A esta altura, o grupo já era maior: além dela, juntaram-se mais duas meninas que também queriam escrever. 
                       Perguntei às cuidadoras, que estavam na outra sala, se havia lápis para as crianças utilizarem, mas naquele momento não havia. Cedi uma caneta para cada criança e dei duas folhas do caderno novo (pois eram folhas brancas pautadas, enquanto as da agenda tinham desenhos e eram coloridas) para cada uma delas experimentar. Também fiz a clássica dobradura chapéu-barquinho, e uma delas tentou fazer depois também.A disponibilidade de materiais para as crianças escolherem na sala de movimento e na sala de brincar é ampla quando se consideram os suportes tradicionais, como bonecas, carrinhos, animais de pelúcia, bolas, objetos de madeira, no entanto não se expande para lápis, papel, tinta e giz de cera. 
                       Muito se enfatiza aqui o protagonismo infantil e a passividade do comportamento adulto, mas escolher e modelar o ambiente e quais materiais serão disponibilizados, ou onde, ou quando, também não caracteriza uma postura ativa da atitude adulta? Montessori deu passos importantes quando pensou em móveis adequados para crianças, mas Malaguzzi deu um passo adiante quando propôs a contribuição da criança na construção do espaço e na escolha dos objetos, ao invés de encontra-lo simplesmente dado. 
                       O papel, o lápis, o giz de cera não fariam parte, portanto, de objetos que deveriam estar disponíveis para serem escolhidos ou não pelas crianças, a partir do seu livre-arbítrio? Talvez eles ajudassem a construir uma comunicação mais eficiente e uma leitura de mundo mais abrangente, que pudessem em parte compensar as palavras engolidas na passividade.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Fale com ela

                     Expressivos e cativantes. Assim são os olhos da pequena L., 2 anos. Sentada no canto da sala e rodeada dos brinquedos mais próximos, ela apenas observa os colegas quando há um movimento ou som inusitado. Ela agrupa, empilha, constrói e derruba aquilo que alcança. No tamanho de seus braços há um mundo todo seu.
                     Uma das primeiras orientações recebidas, presente na folha de instruções que recebi, foi sobre a comunicação entre adultos e crianças. O adulto deve ter uma atitude passiva, respondendo apenas as questões que as crianças fazem diretamente a ele, ou ajudando quando elas pedem, sugerindo ações para novas tentativas ("talvez colocando os brinquedos no chão seja mais fácil calçar os sapatos") ou interferindo em brigas com agressões físicas. Sem grandes conversas entre adultos e crianças na sala de brinquedo e na sala de movimento.
                     Loris Malaguzzi, referência da Reggio Emilia, busca expandir esta relação, no entanto. É importante, para ele, que as crianças, professores e pais (responsáveis) ajam ativamente para o desenvolvimento de uma comunidade. Atitudes passivas não são contempladas ou encorajadas. A criança deve ter seu espaço para criar, especular, tentar e brincar, mas estas ações também precisam ser respaldadas pelo próprio professor/cuidador.
                     Quando Emmi Pikler propôs deixar as crianças sossegadas ("ruhig") o significado seria, de fato, incentivar a subnutrição da comunicação? Ou seus leitores traduzem o termo ao pé da letra como "quieto" ou "silencioso" a ponto de não considerarem que as crianças, especialmente as pequenas, podem se comunicar de diferentes formas que vão além da fala? Até que ponto se pode transpor, sem limites e sem crítica histórica uma metodologia ou diretriz criada em um orfanato na Hungria, após a Segunda Guerra Mundial, para a Berlim de 2018, uma cidade extremamente comunicativa e informacional?
                     O que a pequena L. diria se seus olhos pudessem ser ouvidos?


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O filho do ser como parte da Natureza

                  Um casal de amigos, 30 e 31 anos, teve sua primeira filha no começo de 2018. Cercados de informação e de superproteção eles procuraram (e procuram) prover, para a criança, a bolha mais segura e caprichada possível, a ponto de considerarem levá-la ou não a um evento que ocorrerá em julho de 2019, quando a criança já tiver cerca de um ano e meio, pelo fato de ser inverno.
                   Lembrei desta história quando, um dos dias chuvosos de inverno, as cuidadoras decidiram fazer uma pequena expedição com as crianças ao chamado Spielplatz (local de brincar, parquinho). Ele é um local ao ar livre, um parque, com chão de terra, areia, grama, esculturas de pedra que soltam água no verão, brinquedos de montar que crianças podem utilizar - e apenas crianças, animais são proibidos e atividades que apresentem risco para elas também, como ingerir bebida alcoólica ou fumar.
                  A saga se iniciou aproximadamente às 14:30, após as crianças despertarem de seu soninho e comerem o lanche da tarde. Elas foram levadas ao hall de entrada, onde se encontram suas roupas para sair, como casacos, gorros, macacões e botas impermeáveis. Cada criança tem um espaço e um cabide com nome e foto, então já sabem para onde se dirigir, caso queiram seus pertences. Algumas já são capazes de se vestirem sozinhas, enquanto outras contam com o auxílio dos adultos. Neste caso, trata-se de uma experiência bastante integradora, já que as cuidadoras se preocupam em dar atenção total a cada criança. que ajudam a vestir.
                  Com todos prontos, no corredor de saída, as crianças deram as mãos formando duplas ou trios, e depois seguraram a mão das cuidadoras. O pai de uma das crianças chegou para buscá-la e acabou participando da atividade. As crianças saíram para um ambiente aberto em que os termômetros indicavam quatro graus, desconsiderando a sensação térmica ainda menor por causa do vento. Como havia chovido, o passeio foi redirecionado para uma livraria e depois para uma breve volta no quarteirão, onde todos puderam ver os enfeites de Natal, a base policial e outras atrações que encontravam no caminho. Na livraria, que era pequena e confortável, algumas crianças exploraram os livros nas prateleiras mais baixas, enquanto outras observavam uma das cuidadoras no processo de compra de dois livros infantis. 
                  O vento e o frio não deram trégua em nenhum momento, e às vezes parecia que as crianças (e os adultos) simplesmente sairiam voando. Na biografia de Emmi Pikler (Emmi Pikler: Mehr als eine Kinderärztin)escrita por Anna Czimmek, há um relato sobre pais aconselhados a exporem seus filhos com poucos meses de vida a invernos rigorosos, na varanda de suas casas, desde que supervisionados e bem agasalhados. A ideia geral era a de que o ser humano é parte da natureza e que, em algumas situações, é mais razoável adaptarmo-nos a ela e a seus caprichos em vez de enfrentá-la ou evitá-la, como se a espécie humana fosse inapta a conviver sob condições naturais.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Rotina

                         A rotina no Krippe busca manter as crianças informadas e familiarizadas com as ações do dia a dia. Tendo este conhecimento, elas são capazes de antever os momentos de seu cotidiano e diminuir sua ansiedade. Este ponto é importante principalmente para as crianças que ainda sentem bastante a ausência dos pais, ou chorar às vezes por conta disso. Quando perguntam quando o pai ou a mãe vem, as cuidadoras falam sobre os próximos passos do dia até a chegada dos pais ("vamos escovar os dentes, brincar um pouco e então o papai ou a mamãe vai chegar).A rotina do Krippe e do Kita são distintas. Primeiramente será descrita a rotina do Krippe e, futuramente, a rotina do Kitta.
                         No Krippe, as crianças chegam entre 8 e 10 horas. Os pais as ajudam a tirar o tênis na porta, bem como os casacos e pendura-los no local onde a foto com o nome de cada uma indica. Elas brincam nas duas salas específicas para esta ação, onde há diferentes brinquedos e objetos para explorarem. Por volta das 9:45, elas são convidadas a dividirem uma refeição, com uma maçã, que a cuidadora corta e reparte entre elas. A cuidadora estende um pano sobre um suporte de madeira e as crianças se sentam ao seu redor. Aquelas que não estão interessadas em comer não são obrigadas a permanecerem naquele espaço.
                         A brincadeira é interrompida apenas em períodos muito específicos, como na hora do almoço, que se inicia às 11 horas. Três crianças almoçam por vez, sempre na mesma ordem, o que permite saberem quando será o seu momento. em uma das salas de brinquedo há um cercado e, dentro dele, mesinhas pequenas e cadeiras onde elas comem com a supervisão da cuidadora. A comida vem de uma empresa contratada e que serve apenas produtos orgânicos. Enquanto três se alimentam, as outras continuam a brincar.
                         Após terminarem de comer, aproximadamente às 12:30, elas são convidadas a irem ao banheiro/trocador, depois par o quarto de dormir, onde cada uma delas tem uma cama. Nem todas as crianças querem dormir, então elas podem continuar nos espaços de brincadeira por este período.
                         Conforme acordam, por volta das 14:00, as crianças são trocadas, banhadas, escovam os dentes e voltam para as salas de brincadeira. Todo o processo de acordar demora cerca de 45 minutos, pois as crianças não são acordadas todas ao mesmo tempo, mas sim em pequenos grupos, já que desta forma a cuidadora pode lhe dar atenção.
                          s crianças retornam para as salas de brincadeira para brincarem e esperarem os pais que começam a chegar entre 15:00 e 16:00. Neste intervalo, é servido o lanche da tarde no mesmo esquema do almoço: pequenos grupos por vez. Esta é a ação conjunta final, as crianças percebem que após este lanche os pais começam a chegar. Se elas ainda estão comendo, é comum os pais esperarem que elas terminem para que saiam da sala. A cuidadora resume o dia, aponta se houve algo diferente ou alguma dificuldade e os pais se encarregam de pegar os pertences das crianças no hall.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Na teoria

                         Em Berlim, o governo tem autonomia para decidir o currículo escolar, a formação dos professores e professoras que podem integrar o sistema de ensino e delibera sobre o espaço adequado para o número de crianças, quantos profissionais a instituição deve ter, normas de segurança entre outros processos burocráticos.
                         Um exemplo é o Kita onde o estágio tem sido feito: são permitidas 25 crianças para o espaço disponível e, se por ventura uma a mais permanece, totalizando 26, as responsáveis precisam encaminhar um ofício explicando o motivo, por quanto tempo, quais são as especificações desta criança etc.
Aqui há algumas categorias distintas para profissionais da educação. É possível fazer o curso "Erzieherung" e se tornar um(a) Erzieher-in. Não se trata de um professor ou de uma professora, mas pessoas habilitadas para cuidar e educar crianças menores, entre 0 e 5 anos. Não é um curso realizado na Universidade, mas habilita para a educação com os pequenos.
                         Os Kitas em Berlim, em comparação com o número de crianças entre 0 e 2 anos, são raros. No começo do ano letivo, entre agosto e setembro, o número pode checar a 100 candidatos pleiteando três vagas. A partir dos três anos, a garantia de um lugar para ficar aumenta. De acordo com a lei, na teoria, o governo deve ofertar vagas suficientes para todas as crianças, mas na prática, isto não ocorre. Pais e mães, então, após atingirem o limite de licença maternidade remunerada de 1 ano, não conseguem retornar aos seus trabalhos, ou apenas um deles consegue, pois apesar da licença se estender de forma não remunerada, não há um lugar apropriado para deixar as crianças. Alguns casais já procuram vaga antes mesmo de engravidar.
                         Algumas saídas são pensadas para contornar o problema: as creches podem ser idealizadas pelos próprios pais ou por instituições religiosas; existem as Tagesmutter e os Tagesvater, pessoas que trabalham como cuidadoras/educadores em sua própria de um grupo pequeno de crianças. Ela tem a responsabilidade de educa-los, cuidar de seu bem-estar, cozinhar e servir as refeições e higienizá-los.
Na prática, a teoria é outra.



Lei para fomento de crianças em instituições diárias e cuidado diário de crianças – Gesetz zur Förderung von Kindern in Tageseinrichtungen und Kindertagespflege (Kindertagesförderungsgesetz - KitaFöG) Vom 23. Juni 2005. De 23 de junho de 2005.

Leis escolares

Kitas

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Um pouco sobre o projeto...

 Iniciei meu doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e desde então tenho estudado sobre relações entre desenho animado, brinquedo e brincadeira na Educação Infantil. 

A escola brasileira analisada em nossa pesquisa prioriza, no entanto, que a alfabetização e a brincadeira tenham um espaço e hora marcados. Majoritariamente, as professoras escolhem o momento e os materiais que serão utilizados, o que não condiz com o que conceituamos aqui com brincadeira, a saber, “o jogo só é jogo quando a criança pensa apenas em brincar [...] e quando selecionado espontaneamente pela criança. Caso contrário é trabalho ou ensino” (KISHIMOTO, 2016, p. 6).

Em busca de novas experiências que pudessem se relacionar diretamente com a pesquisa em desenvolvimento, buscou-se um local onde o sistema de ensino tenha uma filosofia baseada no brincar como referido na base teóricaPara Montessori (2010), existe a necessidade de se construir uma Pedagogia Científica, que ligaria as pesquisas de áreas da psicologia, medicina, psiquiatria à prática escolar visando a construção de um conhecimento que atendesse a necessidade das crianças e de seu desenvolvimento livre e que pudesse incentivar a sua liberdade. De acordo com Malaguzzi,a escola é pensada como um organismo vivo que integra a organização do trabalho, o programa educacional e o ambiente, para que se possa “haver movimento, interdependência e interação máximos” (EDWARDS, GANDINI, FORMAN, 2016, p. 69).

Haja vista que, no Brasil, as ideias de Montessori e Malaguzzi já se encontravam bastante conhecidas, optou-se, então por buscar um estágio em uma escola no sistema alemão que tivesse como referencial pedagógico as pesquisas e publicações da médica húngara Emmi Pikler. Para ela, as relações interpessoais só se tornam possíveis se o professor e a família estiverem dispostos a compreender a forma como as crianças se comunicam e se expressam para além das palavras. Adquirir tal habilidade só é possível quando a observação realizada pelos adultos se despe dos preconceitos preexistentes e se tornam ações integradoras. Nesse sentido, a brincadeira seria o meio de a criança alcançar sua autonomia. De acordo com Pikler, “uma criança que alcança algo por experiência própria adquire um conhecimento muito distinto daquela a quem foi dada uma solução pronta” (PIKLER, 2013, 73). O mesmo se aplica aos brinquedos e brincadeiras, que devem partir da “predisposição de cada criança”. (Ibidem, p. 76).

Após entrar em contato com representantes da Rede Pikler Brasil, fui levada a escrever para a Patrícia, brasileira radicada em Berlim e que faz parte do corpo de funcionários do espaço infantil fundado em 2013 pelos pais e pela pedagoga Andrea von Gosen. Localizado na cidade de Berlim, Alemanha, ele pode ser divido em dois: o primeiro é  baseado na pedagogia de Pikler e de Rebecca e Mauricio Wild, onde as crianças encontram “espaço e tempo suficientes”[1] para explorarem seus interesses de forma independente (são 10 vagas para crianças entre 1 e 3 anos); e o segundo é o  Kita[2], com 15 vagas para crianças de 1 a 6 anos distribuídas em três grupos, e que segue uma rotina pré-estabelecida pelos professores.

O espaço segue as diretrizes berlinenses[3] para os cuidados das crianças em Kitas, regulamentadas pela cidade. Diferentemente da legislação brasileira, o sistema alemão concede às cidades a prerrogativa das leis e elas permitem que os Kitas se formem a partir da união de pais e profissionais. Em Berlim, por exemplo, a obrigatoriedade escolar se inicia para crianças com 6 anos completos até dia 30 de setembro, ao passo que antes desta idade não há obrigatoriedade de matricular as crianças em uma pré-escola ou creche.

Comparativamente, as crianças que tenham entre 4 e 5 anos estão na fase de não obrigatoriedade escolar, enquanto as crianças da escola brasileira analisada nesta pesquisa já se encontram matriculadas por força da lei. Além disso, enquanto em Berlim elas ainda estão se desenvolvendo com base na brincadeira, na nossa escola elas já estão na fase da alfabetização.

Com os resultados da pesquisa, espera-se apontar e possibilitar alternativas às pré-escolas no seu trabalho com crianças de 4 e 5 anos que, no Brasil, já são inseridas em um ambiente de alfabetização. Como o letramento nesta idade é parte da cultura escolar brasileira, tentaremos buscar espaços que permitam às crianças efetivar seu direito à brincadeira[1] enquanto atividade livre.

Espera-se também contribuir para que novos caminhos sejam construídos em termos de intercâmbio cultural entre Brasil e Alemanha, intercâmbio este que traga novas perspectivas para os dois países e amplie os horizontes da pesquisa na área de educação no país.   

_______________________________________________________        

[1] http://inselreich.org/. Acesso em: novembro de 2018.
[2] Abreviação para Kindertagesstaette, equivalente à creche brasileira.
[3] Lei para fomento de crianças em instituições diárias e cuidado diário de crianças – Gesetz zur Förderung von Kindern in Tageseinrichtungen und  Kindertagespflege (Kindertagesförderungsgesetz - KitaFöG) Vom 23. Juni 2005. De 23 de junho de 2005. Disponível em: http://gesetze.berlin.de/jportal/?quelle=jlink&query=KitaRefG+BE&psml=bsbeprod.psml&max=true&aiz=true  <Acesso em: 5 de novembro de 2018>.