Um casal de amigos, 30 e 31 anos, teve sua primeira filha no começo de 2018. Cercados de informação e de superproteção eles procuraram (e procuram) prover, para a criança, a bolha mais segura e caprichada possível, a ponto de considerarem levá-la ou não a um evento que ocorrerá em julho de 2019, quando a criança já tiver cerca de um ano e meio, pelo fato de ser inverno.
Lembrei desta história quando, um dos dias chuvosos de inverno, as cuidadoras decidiram fazer uma pequena expedição com as crianças ao chamado Spielplatz (local de brincar, parquinho). Ele é um local ao ar livre, um parque, com chão de terra, areia, grama, esculturas de pedra que soltam água no verão, brinquedos de montar que crianças podem utilizar - e apenas crianças, animais são proibidos e atividades que apresentem risco para elas também, como ingerir bebida alcoólica ou fumar.
A saga se iniciou aproximadamente às 14:30, após as crianças despertarem de seu soninho e comerem o lanche da tarde. Elas foram levadas ao hall de entrada, onde se encontram suas roupas para sair, como casacos, gorros, macacões e botas impermeáveis. Cada criança tem um espaço e um cabide com nome e foto, então já sabem para onde se dirigir, caso queiram seus pertences. Algumas já são capazes de se vestirem sozinhas, enquanto outras contam com o auxílio dos adultos. Neste caso, trata-se de uma experiência bastante integradora, já que as cuidadoras se preocupam em dar atenção total a cada criança. que ajudam a vestir.
Com todos prontos, no corredor de saída, as crianças deram as mãos formando duplas ou trios, e depois seguraram a mão das cuidadoras. O pai de uma das crianças chegou para buscá-la e acabou participando da atividade. As crianças saíram para um ambiente aberto em que os termômetros indicavam quatro graus, desconsiderando a sensação térmica ainda menor por causa do vento. Como havia chovido, o passeio foi redirecionado para uma livraria e depois para uma breve volta no quarteirão, onde todos puderam ver os enfeites de Natal, a base policial e outras atrações que encontravam no caminho. Na livraria, que era pequena e confortável, algumas crianças exploraram os livros nas prateleiras mais baixas, enquanto outras observavam uma das cuidadoras no processo de compra de dois livros infantis.
O vento e o frio não deram trégua em nenhum momento, e às vezes parecia que as crianças (e os adultos) simplesmente sairiam voando. Na biografia de Emmi Pikler (Emmi Pikler: Mehr als eine Kinderärztin), escrita por Anna Czimmek, há um relato sobre pais aconselhados a exporem seus filhos com poucos meses de vida a invernos rigorosos, na varanda de suas casas, desde que supervisionados e bem agasalhados. A ideia geral era a de que o ser humano é parte da natureza e que, em algumas situações, é mais razoável adaptarmo-nos a ela e a seus caprichos em vez de enfrentá-la ou evitá-la, como se a espécie humana fosse inapta a conviver sob condições naturais.
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