No dia dos professores, em 2018, ganhei uma agenda. Eu não uso agenda, mas decidi que aquela eu usaria para fazer anotações sobre o dia a dia em Berlim. Mas, com o passar do tempo, ela se tornou mais do que um objeto de observação.
Logo no segundo dia, a agenda chamou a atenção de uma das garotinhas mais velhas, que está prestes a completar 3 anos. A capa colorida e a personagem negra e de cabelos esvoaçantes da ilustração se tornou um atrativo para ela. O que eu estava fazendo com aquele caderno? "Estou escrevendo para um trabalho" - respondi, seguindo a regra da comunicação curta e direta. Ela quis ver o que era e eu lhe entreguei a agenda. Ela folheou e leu algumas histórias imaginárias em suas páginas em branco.
Nos dias que seguiram, ela pediu a agenda emprestada. Sentava-se no chão ou sozinha ou com seus colegas para ler histórias que ela mesma criava. No final da primeira semana, ela arriscou perguntar se podia escrever também. Emprestei-lhe minha caneta e ela riscou da forma como achava que seu nome era escrito. No final daquele dia, a cuidadora disponibilizou lápis, giz de cera e folha para eles utilizarem nas mesinhas que antes serviam as refeições, mas que agora se encontravam vazias.
Uma semana depois, comprei um caderno mais simples sabendo que a agenda chamaria muita atenção. Na segunda-feira, a mesma menina me perguntou onde estava o outro caderno. Eu expliquei que não havia levado, mas que no dia seguinte poderia trazê-lo novamente. Na terça-feira a agenda estava de volta, e ela leu em suas páginas em branco mais algumas histórias. Já na quarta-feira, ela pediu para escrever. A esta altura, o grupo já era maior: além dela, juntaram-se mais duas meninas que também queriam escrever.
Perguntei às cuidadoras, que estavam na outra sala, se havia lápis para as crianças utilizarem, mas naquele momento não havia. Cedi uma caneta para cada criança e dei duas folhas do caderno novo (pois eram folhas brancas pautadas, enquanto as da agenda tinham desenhos e eram coloridas) para cada uma delas experimentar. Também fiz a clássica dobradura chapéu-barquinho, e uma delas tentou fazer depois também.A disponibilidade de materiais para as crianças escolherem na sala de movimento e na sala de brincar é ampla quando se consideram os suportes tradicionais, como bonecas, carrinhos, animais de pelúcia, bolas, objetos de madeira, no entanto não se expande para lápis, papel, tinta e giz de cera.
Muito se enfatiza aqui o protagonismo infantil e a passividade do comportamento adulto, mas escolher e modelar o ambiente e quais materiais serão disponibilizados, ou onde, ou quando, também não caracteriza uma postura ativa da atitude adulta? Montessori deu passos importantes quando pensou em móveis adequados para crianças, mas Malaguzzi deu um passo adiante quando propôs a contribuição da criança na construção do espaço e na escolha dos objetos, ao invés de encontra-lo simplesmente dado.
O papel, o lápis, o giz de cera não fariam parte, portanto, de objetos que deveriam estar disponíveis para serem escolhidos ou não pelas crianças, a partir do seu livre-arbítrio? Talvez eles ajudassem a construir uma comunicação mais eficiente e uma leitura de mundo mais abrangente, que pudessem em parte compensar as palavras engolidas na passividade.
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