Iniciei meu
doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e desde então tenho
estudado sobre relações entre desenho animado, brinquedo e brincadeira na
Educação Infantil.
A escola brasileira
analisada em nossa pesquisa prioriza, no entanto, que a alfabetização e a
brincadeira tenham um espaço e hora marcados. Majoritariamente, as professoras
escolhem o momento e os materiais que serão utilizados, o que não condiz com o
que conceituamos aqui com brincadeira, a saber, “o jogo só é jogo quando a
criança pensa apenas em brincar [...] e quando selecionado espontaneamente pela
criança. Caso contrário é trabalho ou ensino” (KISHIMOTO, 2016, p. 6).
Em busca de novas
experiências que pudessem se relacionar diretamente com a pesquisa em
desenvolvimento, buscou-se um local onde o sistema de ensino tenha uma
filosofia baseada no brincar como referido na base teórica. Para Montessori (2010), existe a necessidade de se
construir uma Pedagogia Científica, que ligaria as pesquisas de áreas da
psicologia, medicina, psiquiatria à prática escolar visando a construção de um
conhecimento que atendesse a necessidade das crianças e de seu desenvolvimento
livre e que pudesse incentivar a sua liberdade. De acordo com Malaguzzi,a
escola é pensada como um organismo vivo que integra a organização do trabalho,
o programa educacional e o ambiente, para que se possa “haver movimento,
interdependência e interação máximos” (EDWARDS, GANDINI, FORMAN, 2016, p. 69).
Haja vista que, no
Brasil, as ideias de Montessori e Malaguzzi já se encontravam bastante
conhecidas, optou-se, então por buscar um estágio em uma escola no sistema
alemão que tivesse como referencial pedagógico as pesquisas e publicações da
médica húngara Emmi Pikler. Para ela, as relações interpessoais só se tornam
possíveis se o professor e a família estiverem dispostos a compreender a forma
como as crianças se comunicam e se expressam para além das palavras. Adquirir
tal habilidade só é possível quando a observação realizada pelos adultos se
despe dos preconceitos preexistentes e se tornam ações integradoras. Nesse
sentido, a brincadeira seria o meio de a criança alcançar sua autonomia. De
acordo com Pikler, “uma criança que alcança algo por experiência própria
adquire um conhecimento muito distinto daquela a quem foi dada uma solução
pronta” (PIKLER, 2013, 73). O mesmo se aplica aos brinquedos e brincadeiras,
que devem partir da “predisposição de cada criança”. (Ibidem, p. 76).
Após entrar em contato
com representantes da Rede Pikler Brasil, fui levada a escrever para a
Patrícia, brasileira radicada em Berlim e que faz parte
do corpo de funcionários do espaço infantil fundado em 2013 pelos pais e pela
pedagoga Andrea von Gosen. Localizado na cidade de Berlim, Alemanha, ele pode
ser divido em dois: o primeiro é baseado na pedagogia de Pikler e
de Rebecca e Mauricio
Wild, onde as crianças encontram “espaço e
tempo suficientes”[1] para explorarem seus interesses
de forma independente (são 10 vagas para crianças entre 1 e 3 anos); e o
segundo é o Kita[2], com 15 vagas para
crianças de 1 a 6 anos distribuídas em três grupos, e que segue uma rotina
pré-estabelecida pelos professores.
O espaço segue as diretrizes berlinenses[3] para os cuidados das crianças em Kitas,
regulamentadas pela cidade. Diferentemente da legislação brasileira, o sistema
alemão concede às cidades a prerrogativa das leis e elas permitem que os Kitas
se formem a partir da união de pais e profissionais. Em Berlim, por
exemplo, a obrigatoriedade escolar se inicia para crianças com 6 anos completos
até dia 30 de setembro, ao passo que antes desta idade não há obrigatoriedade
de matricular as crianças em uma pré-escola ou creche.
Comparativamente, as crianças que tenham entre 4 e
5 anos estão na fase de não obrigatoriedade escolar, enquanto as crianças da
escola brasileira analisada nesta pesquisa já se encontram matriculadas por
força da lei. Além disso, enquanto em Berlim elas ainda estão se desenvolvendo
com base na brincadeira, na nossa escola elas já estão na fase da
alfabetização.
Com os resultados da pesquisa, espera-se apontar e
possibilitar alternativas às pré-escolas no seu trabalho com crianças de 4 e 5
anos que, no Brasil, já são inseridas em um ambiente de alfabetização. Como o
letramento nesta idade é parte da cultura escolar brasileira, tentaremos buscar
espaços que permitam às crianças efetivar seu direito à brincadeira[1] enquanto atividade livre.
Espera-se também
contribuir para que novos caminhos sejam construídos em termos de intercâmbio
cultural entre Brasil e Alemanha, intercâmbio este que traga novas perspectivas
para os dois países e amplie os horizontes da pesquisa na área de educação no
país.
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[1] http://inselreich.org/.
Acesso em: novembro de 2018.
[2] Abreviação para Kindertagesstaette, equivalente à creche brasileira.
[3] Lei para fomento de crianças em instituições
diárias e cuidado diário de crianças – Gesetz
zur Förderung von Kindern in
Tageseinrichtungen und Kindertagespflege
(Kindertagesförderungsgesetz - KitaFöG) Vom 23. Juni 2005. De 23 de junho de 2005. Disponível em: http://gesetze.berlin.de/jportal/?quelle=jlink&query=KitaRefG+BE&psml=bsbeprod.psml&max=true&aiz=true <Acesso
em: 5 de novembro de 2018>.
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