terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Um pouco sobre o projeto...

 Iniciei meu doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e desde então tenho estudado sobre relações entre desenho animado, brinquedo e brincadeira na Educação Infantil. 

A escola brasileira analisada em nossa pesquisa prioriza, no entanto, que a alfabetização e a brincadeira tenham um espaço e hora marcados. Majoritariamente, as professoras escolhem o momento e os materiais que serão utilizados, o que não condiz com o que conceituamos aqui com brincadeira, a saber, “o jogo só é jogo quando a criança pensa apenas em brincar [...] e quando selecionado espontaneamente pela criança. Caso contrário é trabalho ou ensino” (KISHIMOTO, 2016, p. 6).

Em busca de novas experiências que pudessem se relacionar diretamente com a pesquisa em desenvolvimento, buscou-se um local onde o sistema de ensino tenha uma filosofia baseada no brincar como referido na base teóricaPara Montessori (2010), existe a necessidade de se construir uma Pedagogia Científica, que ligaria as pesquisas de áreas da psicologia, medicina, psiquiatria à prática escolar visando a construção de um conhecimento que atendesse a necessidade das crianças e de seu desenvolvimento livre e que pudesse incentivar a sua liberdade. De acordo com Malaguzzi,a escola é pensada como um organismo vivo que integra a organização do trabalho, o programa educacional e o ambiente, para que se possa “haver movimento, interdependência e interação máximos” (EDWARDS, GANDINI, FORMAN, 2016, p. 69).

Haja vista que, no Brasil, as ideias de Montessori e Malaguzzi já se encontravam bastante conhecidas, optou-se, então por buscar um estágio em uma escola no sistema alemão que tivesse como referencial pedagógico as pesquisas e publicações da médica húngara Emmi Pikler. Para ela, as relações interpessoais só se tornam possíveis se o professor e a família estiverem dispostos a compreender a forma como as crianças se comunicam e se expressam para além das palavras. Adquirir tal habilidade só é possível quando a observação realizada pelos adultos se despe dos preconceitos preexistentes e se tornam ações integradoras. Nesse sentido, a brincadeira seria o meio de a criança alcançar sua autonomia. De acordo com Pikler, “uma criança que alcança algo por experiência própria adquire um conhecimento muito distinto daquela a quem foi dada uma solução pronta” (PIKLER, 2013, 73). O mesmo se aplica aos brinquedos e brincadeiras, que devem partir da “predisposição de cada criança”. (Ibidem, p. 76).

Após entrar em contato com representantes da Rede Pikler Brasil, fui levada a escrever para a Patrícia, brasileira radicada em Berlim e que faz parte do corpo de funcionários do espaço infantil fundado em 2013 pelos pais e pela pedagoga Andrea von Gosen. Localizado na cidade de Berlim, Alemanha, ele pode ser divido em dois: o primeiro é  baseado na pedagogia de Pikler e de Rebecca e Mauricio Wild, onde as crianças encontram “espaço e tempo suficientes”[1] para explorarem seus interesses de forma independente (são 10 vagas para crianças entre 1 e 3 anos); e o segundo é o  Kita[2], com 15 vagas para crianças de 1 a 6 anos distribuídas em três grupos, e que segue uma rotina pré-estabelecida pelos professores.

O espaço segue as diretrizes berlinenses[3] para os cuidados das crianças em Kitas, regulamentadas pela cidade. Diferentemente da legislação brasileira, o sistema alemão concede às cidades a prerrogativa das leis e elas permitem que os Kitas se formem a partir da união de pais e profissionais. Em Berlim, por exemplo, a obrigatoriedade escolar se inicia para crianças com 6 anos completos até dia 30 de setembro, ao passo que antes desta idade não há obrigatoriedade de matricular as crianças em uma pré-escola ou creche.

Comparativamente, as crianças que tenham entre 4 e 5 anos estão na fase de não obrigatoriedade escolar, enquanto as crianças da escola brasileira analisada nesta pesquisa já se encontram matriculadas por força da lei. Além disso, enquanto em Berlim elas ainda estão se desenvolvendo com base na brincadeira, na nossa escola elas já estão na fase da alfabetização.

Com os resultados da pesquisa, espera-se apontar e possibilitar alternativas às pré-escolas no seu trabalho com crianças de 4 e 5 anos que, no Brasil, já são inseridas em um ambiente de alfabetização. Como o letramento nesta idade é parte da cultura escolar brasileira, tentaremos buscar espaços que permitam às crianças efetivar seu direito à brincadeira[1] enquanto atividade livre.

Espera-se também contribuir para que novos caminhos sejam construídos em termos de intercâmbio cultural entre Brasil e Alemanha, intercâmbio este que traga novas perspectivas para os dois países e amplie os horizontes da pesquisa na área de educação no país.   

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[1] http://inselreich.org/. Acesso em: novembro de 2018.
[2] Abreviação para Kindertagesstaette, equivalente à creche brasileira.
[3] Lei para fomento de crianças em instituições diárias e cuidado diário de crianças – Gesetz zur Förderung von Kindern in Tageseinrichtungen und  Kindertagespflege (Kindertagesförderungsgesetz - KitaFöG) Vom 23. Juni 2005. De 23 de junho de 2005. Disponível em: http://gesetze.berlin.de/jportal/?quelle=jlink&query=KitaRefG+BE&psml=bsbeprod.psml&max=true&aiz=true  <Acesso em: 5 de novembro de 2018>.


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