O processo de seleção das crianças e famílias que integrarão a creche no início de cada semestre letivo é rigoroso. Começa com um formulário online, disponível no site do Kita, passa por uma entrevista com os pais, pela vivência com as outras crianças até a decisão final do conselho de verificar se a família e a criança estão dentro ou não dos parâmetros exigidos. Nem todos os candidatos tem a sua matrícula aceita e então precisam procurar outro lugar. À primeira vista, o resultado parece ser a formação de um grupo com um comportamento sempre igual.
No entanto, um olhar mais atento no dia a dia revela que, mesmo nesta aparente homogeneidade, a personalidade das crianças traz cores e tons mais fortes e difusos do que aqueles vislumbrados no processo seletivo. Dentre as dez crianças observadas, é possível destacar alguns traços de personalidade:
K: é uma criança extremamente comunicativa e muito sensata. Consegue ter bons momentos tanto sozinha como em grupo. Raramente precisa de intervenção ou sugestão das cuidadoras.
H: é bastante sensível e se frustra facilmente com atitudes que contradizem a sua. Demonstra esta frustração com um choro que evolui para a verbalização da falta dos pais. Tem uma colega com quem brinca mais e confia pouco nos demais.
I: Tem bons momentos com outras crianças, mas prefere brincar sozinha. Consegue explorar vários pontos da sala de movimento e de brinquedo individualmente. Em seus desafios diários, como escalar, parece insegura e sempre pede ajuda ou choraminga. Comunica-se pouco com palavras.
S: um dos mais velhos do grupo. É cooperativo e se relaciona melhor com outra colega que tem quase a mesma idade. Não é um líder, mas é independente e não faz nada que seja contra sua vontade.
Z: amiga de H, porém mais independente. Consegue interagir bem com os demais e lidera as brincadeiras que a dupla realiza. Precisa de pouca intervenção e consola H. quando esta chora. Resolve a maior parte de seus desafios sozinha e raramente chora.
T: pouco compareceu à creche no mês de janeiro, pois estava doente. Nos dia que veio, mostrou-se extremamente sensível à ausência dos pais e pouco confiante na presença dos outros. Permaneceu quase todo tempo com as cuidadoras e pouco se aventurou a ficar apenas na companhia das outras crianças.
L: é a crianças dos olhos expressivos, boca de poucas palavras ("mama", "papa") e introspectiva. Nada disso a torna infeliz, pelo contrário, parece sempre satisfeita com a sua própria companhia.
N: Um dos mais novos, o que não o impede de ser curioso e comunicativo. Faz muitas descobertas em suas incursões, principalmente quando está sozinho. observa com atenção as brincadeiras dos demais e quando se interessa, junta-se a eles. Precisa/pede pouca ajuda.
Q: Uma das mais velhas, já apresentadas anteriormente como uma criança musicalmente expressiva e de personalidade forte. Lidera as brincadeiras, atribui funções aos colegas, coloca-se lado a lado com as cuidadoras procurando realizar suas tarefas. Quando se frustra, eleva o tom de voz e/ou empurra e bate. É por isso que ainda precisa de intervenção das cuidadoras. No mais, é completamente independente e está prestes a ser transferida para o grupo de crianças mais velhas. Nas últimas duas semanas não esteve presente e a ausência da luz da sua personalidade tirou da sombra o último descrito, aqui chamado de E.
E: Sempre se misturou com o grupo, embora pareça brincar sozinho mesmo quando está com os outros. o que se destacou foi o fato de empurrar ou bater em colegas que não estavam provocando ou sequer estavam perto dele. Também arrancava o brinquedo da mão dos outros colegas, fazendo com que alguns chorassem. Não havia alvos repetidos, qualquer um podia ser agredido. As cuidadoras sempre intervêm, mas poucos minutos depois ele repetia com outro colega, e elas voltavam a conversar com ele, as vezes em particular ("fazer uma pausa").
A pluralidade de personalidades que afloram após algum tempo na creche, quando estão mais à vontade, faz perguntar se os adultos ainda assim aceitariam sua matrícula, caso soubessem o que estaria por vir. A condição humana faz com que nos afeiçoemos a um indivíduo pela sua personalidade, assim como também pode nos fazer sentir repulsa por outro. As cuidadoras procuram tratar todos de acordo com seus traços pessoais de identidade, mas ainda dentro do que sugeriu Emmi Pikler, ou seja, não gritam com as crianças, mas demonstram sua insatisfação na forma como falam, na escolha das palavras, na linguagem corporal etc.
Em nenhum momento classificam a criança como problemática, encrenqueira, hiperativa, bagunceira ou utilizam qualquer outro adjetivo pouco producente. Na sua concepção, compreendem que, em sua complexidade, as crianças enquanto seres humanos tem momentos de frustração que se traduzem em ações pouco aceitas no mundo adulto (correr, gritar, bater, empurrar, morder, entre outros). Sobre a violência, é importante ressaltar que ela não possui entre as crianças o mesmo significado e a mesma dimensão que possui entre os adultos. De acordo com Isa Rodrigues da Luz,
a realização de atos violentos pressupõe que a pessoa já tenha desenvolvido a capacidade de compreender e interpretar as situações vividas. Por essas características que definem o ato violento (ou a violência), e considerando o desenvolvimento das crianças na faixa etária de 0 (zero) a 5 (cinco) anos, não há como dizer que essas crianças agem de forma violenta. Pois, mesmo que a vontade de incomodar ou machucar possa estar presente nos motivos da criança, elas não conseguem avaliar de forma completa as possíveis consequências de seus atos. Além disso, não possuem controle completo do próprio comportamento, estando mais suscetíveis as reações provocadas pelas emoções.
Assim, se o acaso traz personalidades-surpresa para as cuidadoras, elas estão muito bem preparadas para lidar com as adversidades. Não existe, aqui, criança problemática. Não se espera um uma medicação contra TDA/H para uma criança que se movimenta ou que tem enfrentamentos durante seu dia. O diagnóstico para a situação deste indivíduo já está formulado: ele é uma criança e o prognóstico, na maioria das vezes, é uma vida longa e saudável.
Relações entre crianças e adultos na Educação Infantil (Isa Rodrigues da Luz)
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