Confiar os filhos a pessoas estranhas, mesmo aquelas habilitadas para trabalhar com crianças e jovens é uma tarefa que exige mais fé do que razão. Pode-se pesquisar na internet as instituições mais bem avaliadas, com mensalidades maiores ou menores, pedir conselhos para amigos e amigas que já tem filhos ou tentar uma vaga naquela creche bem conceituada perto de casa. Mas, no fim, pouco se sabe sobre as pessoas que iniciarão as atividades pré-escolares dos seus filhos e elas também pouco sabem sobre a criança.
Uma forma encontrada no Inselreich para promover e fortificar a confiança é, como já citada anteriormente, a ativa participação dos pais no seu funcionamento. Além disso, as cuidadoras tem um arquivo com registro diário das crianças, um diário individual (Tageshefte), no qual elas fazem suas observações. Ele é separado em três colunas (Dia/alimentação/atualizações) e são anotados os pontos mais relevantes do desenvolvimento de cada um, formando uma narrativa ao longo do trimestre, apresentada aos pais em forma de carta-relatório.
Também são anotadas alterações do dia a dia que possam causar alguma reação diferente no comportamento das crianças, como a presença de estagiários ou de novas crianças. Em alguns casos, registra-se se comeram ou rejeitaram algum alimento específico. Além disso, atualizam brevemente os pais na entrada e na saída.
O registro diário permite às cuidadoras rememorarem e acompanharem a evolução de cada um. Por observarem seus movimentos e suas brincadeiras diariamente, a narrativa é baseada no relacionamento das crianças os seus pares, com os brinquedos e com os adultos. Pode-se perceber, por exemplo, quando compreendem o objeto tanto em seu sentido literal (o gancho do telefone de brinquedo é entendido como tal, colocado na orelha e na boca) quanto em seu sentido figurado (entrar em um cesto e utiliza-lo como se fosse um carro, dirigindo um volante invisível).
A criação das regras internas de cada brincadeira são observáveis em maior ou menor grau segundo cada criança, principalmente quando brincam juntas. As regras podem ser bastante harmônicas, como no caso das duas meninas que costumam brincar de boneca juntas. Os limites são bem estabelecidos, cada uma tem um local próprio para trocar suas fraldas e colocam-nas para dormir juntas em um berço arrumado por elas. Algumas regras podem, contudo, ser conflitantes, principalmente para a utilização dos brinquedos. A vez que o outro tem o direito de se balanças na rede, por exemplo, não é estabelecida por uma regra tão clara entre as crianças. Depende muito da boa vontade de quem está lá sair e dar a vez ao próximo, ou negociarem (raramente) ou reclamarem/chorarem (mais comum).
O desmancha-prazeres, figura universal, também se apresenta nas brincadeiras. As regras internas servem para que as brincadeiras possam existir em seu universo lúdico e quebra-las significa que este universo foi violado, causando um retorno bruto e indesejado à realidade. Duas crianças fizeram fila indiana e brincaram de pular de cima de uma caixa até o chão. Uma regra muito simples estabelecida era de que um só podia pular quando o da frente já tivesse pulado. Quando a menina que estava à frente demorou um pouco mais para pular (estava arrumando sua blusa), o de traz a empurrou, forçando sua descida. Para ela, a brincadeira acabou ali. Ela ficou decepcionada e chorou um pouco por causa do empurrão e do susto. Procurou outra coisa para brincar, então. Já o menino, pulou ainda mais uma vez, mas logo abandonou as caixas.
Observar e registrar as nuances de comportamento exigem treinamento e esforço, pois facilmente podem ser subjugadas pelos movimentos rotineiros e previsíveis. Compreender o sentido da brincadeira também requer estudo e sensibilidade suficientes para poder classificar seus estágios e o modo como eles dão sentido ao desenvolvimento da criança e do grupo. Finalmente, um registro aprimorado pode revelar para os pais o quanto seus filhos estão sendo cuidados e educados no ambiente onde passam boa parte de sua infância.
Homo Ludens (J. Huizinga)
O jogo e a Educação Infantil (T. Kishimoto)
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